Inovação e genética impulsionam combate ao câncer no SUS
Hospitais universitários avançam em pesquisas de novos métodos de diagnóstico e tratamento, que podem transformar o cuidado Cotidiano 30/11/2025 11h00 |No Dia Nacional de Combate ao Câncer, celebrado em 27 de novembro, hospitais universitários vinculados à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) destacam que o enfrentamento à doença também ocorre nos centros de pesquisa, onde equipes multidisciplinares dedicam-se a transformar o cuidado oncológico. Por meio da ciência e da inovação, novas metodologias buscam oferecer tratamentos mais eficazes, menos agressivos e com mais capacidade de prever a evolução de tumores.
Em Santa Catarina, o Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago (HU-UFSC) desenvolveu uma metodologia para investigar células circulantes de câncer de mama no sangue periférico.
O objetivo é identificar precocemente a presença de células tumorais e a relação com o risco de metástase em pessoas com diagnóstico de Carcinoma Ductal Invasivo (CDI), o tipo mais comum de câncer na população feminina em todo o mundo.
O estudo, publicado em maio na revista da Royal Society of Chemistry , uma das mais importantes organizações científicas do Reino Unido, avaliou 62 pacientes tratadas no HU-UFSC, sendo 47 casos de CDI e 15 pacientes no grupo controle. A pesquisa teve como foco a identificação das células citoqueratina 19 (CK19) por meio da Citometria de Fluxo (CF), ferramenta utilizada na análise de tumores hematológicos que detalha as subpopulações em um curto período.
“Neste estudo em tumores de mama, buscou-se identificar populações celulares positivas para proteína CK19, reconhecida como biomarcador-chave na avaliação do potencial metastático desses tumores”, disse a médica patologista e uma das pesquisadoras, Daniella Serafin Couto Vieira.
Ela explicou que o diferencial da técnica, ainda experimental, está na sua viabilidade para casos de tumores sólidos (não hematológicos). “Em comparação com outras metodologias, a inovação reside principalmente na sua simplicidade, baixo custo e eficácia, utilizando um painel de anticorpos reduzido em Citometria de Fluxo, com alta sensibilidade e reprodutibilidade”, afirmou.
A abordagem utiliza o procedimento metodológico de bulk-lysis , ou lise em massa, que quebra simultaneamente várias células da amostra de sangue periférico. “A metodologia ainda necessita de estudos complementares de validação interna e externa, mas poderá, no futuro, ser implementada em instituições com Citômetro de Fluxo. O uso do bulk-lysis e de apenas três anticorpos torna o processo rápido e econômico, sem a necessidade de plataformas microfluídicas caras ou etapas de separação celular, complexas”, detalha.
Os principais beneficiados pelo método serão pacientes com alto risco de metástase e que apresentam tumores de comportamento biológico agressivo.
“O estudo inicial demonstrou 100% de sensibilidade para a detecção dos subtipos não-luminal A. Os três pacientes que tiveram células tumorais circulantes detectadas pertenciam a esse grupo e evoluíram para óbito rapidamente. A presença dessas células pode, portanto, identificar pacientes que poderiam se beneficiar de um monitoramento intensificado e personalizado”, afirmou.
A pesquisa ainda é experimental. Para que o protocolo possa ser implementado e aplicado na prática, a pesquisadora destaca a necessidade de estudos futuros, tais como coortes maiores, acompanhamento longitudinal e comparações diretas com outras técnicas.
Genética e medicina de precisão
No Rio Grande do Sul, desde março de 2023, o Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel) participa do projeto OncoGenomas Brasil, do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), que investiga o perfil genômico de tumores de mama e de próstata na população brasileira. O objetivo é aprimorar o prognóstico, personalizar tratamentos e impulsionar a medicina de precisão no SUS.
O centro de pesquisa do Hospital Escola já é o quarto em número de inclusões de pacientes entre os centros participantes. Segundo a médica oncologista e pesquisadora principal do estudo no HE-UFPel, Alessandra Notari, a diversidade genética torna o Brasil um campo estratégico para estudos genômicos. “A população brasileira apresenta uma alta miscigenação. Analisar a ancestralidade genética é fundamental para entender como essa mistura influencia o risco e o comportamento dos cânceres de mama e de próstata”, pontuou.
Ao mapear as variações genéticas de grupos populacionais distintos, os pesquisadores conseguem identificar padrões mais frequentes na população brasileira, melhorar o diagnóstico, escolher tratamentos mais adequados e promover um cuidado mais equitativo, especialmente no SUS. “Podemos propor acompanhamentos mais frequentes para pacientes com um risco genético maior em desenvolver outros tumores, oportunizando uma prevenção alvo e inteligente”, disse Alessandra.
A longo prazo, a expectativa é que o projeto transforme a pesquisa e a prática clínica no país, colocando-as em um novo patamar de produção científica. O projeto deve criar um dos maiores bancos de dados genômicos nacionais de câncer de mama e próstata, permitindo estudos mais precisos sobre fatores de risco, diferenças regionais, mecanismos biológicos dos tumores e marcadores que podem orientar novos tratamentos.
“Na prática clínica, o impacto tende a ser ainda mais direto: com a identificação de mutações e perfis genéticos mais comuns na população brasileira poderá orientar melhor o rastreamento de famílias com maior risco e ampliar o acesso à medicina de precisão dentro do SUS”, conclui Alessandra.
A chefe do Setor de Gestão da Pesquisa e da Inovação Tecnológica em Saúde do HE-UFPel, Rosiane Mastelari, reforça o compromisso da instituição, referência regional em oncologia, no combate ao câncer. “No nosso Centro de Pesquisas, conduzimos diversos estudos na área oncológica, entre outras linhas de investigação, reafirmando o nosso compromisso com a produção de conhecimento e com a inovação em saúde”, disse.
O Hospital conta com o Laboratório de Biotecnologia do Câncer, coordenado pelo Grupo de Pesquisa em Oncologia Celular e Molecular, que visa desenvolver, por meio da pesquisa translacional, terapias e estratégias alternativas para o enfrentamento do câncer. “Nosso propósito é aproximar cada vez mais a ciência das necessidades reais da população. Mais do que gerar conhecimento, estamos produzindo soluções que melhoram o cuidado, fortalecem o SUS e promovem a integração entre ensino, ciência e assistência. É assim que a inovação ganha sentido: quando ela chega até o paciente”, afirmou.
Sobre Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Fonte: Governo Federal
